lara linhares
segunda-feira :: 27 outubro, 2014

Fiquei frustrada com o resultado das eleições. Votei em Aécio e no fim fiquei com aquela sensação de “quase”… Mas tava no pacote, isso é democracia, coisa e tal e saber perder também é uma virtude rara hoje em dia. Ilegítimo é ver gente de todas as regiões do meu país (inclusive do Nordeste!) incitando o ódio aos nordestinos, gente resumindo milhões de pessoas em um mesmo xingamento, falando em “proibir que os nordestinos venham ao sudeste”, pessoas “educadas” dizendo que “nordestino é tudo burro”. Gente que no dia a dia disfarça, mas que nessas horas se sente a vontade pra mostrar de que é feito o preconceito… E, portanto, do que é feito, também, o seu próprio caráter.
A essas pessoas a minha certeza de que de nada adiantou se pós graduar e consumir bens caros se tudo isso te transformou em um ser incapaz de respeitar quem pensa diferente, quem vive diferente de você. Você mesmo que teve tanto acesso ao conhecimento, desenvolveu o pensamento crítico e ainda não conseguiu entender que o seu direito termina onde o do outro começa… Minha profunda vergonha não por ser nordestina (jamais!) mas por viver em um tempo em que respeito e amor são palavras muito difundidas por aqui pelas redes e pouco vivenciadas na prática.
#xôpreconceito #somostodosbrasileiros #maisrespeitopelonordeste

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domingo :: 10 agosto, 2014

imageHá duas semanas ele me disse, sentido, que tem um arrependimento com cada um dos filhos, um erro que não gostaria de ter cometido. Eu dei risada e disse que não precisava daquilo (ele sempre foi meio dramático, até nisso a gente se parece). Olhei pra ele e pensei que não era bem o que eu queria dizer, mas entendi que não conseguiria… O que eu queria dizer era que, de verdade, nunca conheci um pai que fizesse por um filho tudo que ele já fez por mim; que depois que eu saí de casa eu percebi que na minha adolescência a gente brigava porque, lá no fundo, a gente é igualzinho. Devia ter dito que foi por causa dele que fiquei mal acostumada, porque a cada vez que ele me vê arrumada para uma festa ele me olha como se eu fosse a mulher mais linda do mundo (e ainda diz isso!). Eu quis dizer a ele que depois que eu o vi ninando o primeiro neto foi que eu realmente entendi porque minha mãe sempre disse que não podia ter escolhido um pai melhor para a gente…
Ainda não sei se um dia consigo dizer tudo isso até o fim, olho no olho. Mas a palavra escrita sempre foi minha amiga, um caminho para chegar onde realmente importa…
Te amo pai, feliz dia! ❤️

sexta-feira :: 25 julho, 2014

    Quando tinha quatro anos de idade a carioca Vânia Queiroz viu Ney Matogrosso dançando na televisão e disse a mãe que queria fazer balé. Dona Raymunda, a mãe dela, criava as três filhas sozinha e, na época, não pode atender ao pedido da filha, mas Vânia não desistiu do sonho. Dona Raymunda também não desistiu e seis anos depois, com esforço, conseguiu matricular a menina em uma escola de balé de Nova Iguaçu, na baixada fluminense, onde a família morava. A investida deu certo, Vânia cresceu e se tornou uma bailarina profissional, graduada como mestre em balé clássico. Algum tempo depois ela começou a dar aulas naquela mesma escola onde um dia realizou o sonho de ter sua primeira aula de balé.

    Um dia Vânia estava em uma escola no bairro de Santa Teresa, para onde havia se mudado com a família. Viu uma menina se aproximar e perguntar se ela era professora de balé. Ao ouvir a resposta afirmativa a criança perguntou: “e quando a senhora vai dar aula para mim”? Foi um encontro rápido, o suficiente para fazer com que aquela pergunta ficasse gravada nos pensamentos de Vânia. A menina tinha quatro anos, a mesma idade com que ela começou a sonhar com o balé… E ela pensou: “se minha mãe fez tanto esforço para eu fazer balé por que eu não posso fazer isso por alguém?”

    Nos dias seguintes àquele encontro a bailarina descobriu que a menininha era moradora do Morro da Coroa, localizado no centro do Rio de Janeiro. Vânia lembra que nunca tinha entrado em uma favela mas decidiu subir o morro para conversar com a presidente da Associação de Moradores. Conseguiu uma sala na sede da associação; era um espaço precário, com uma vala no meio da sala, janelas sem vidros e cadeiras que substituíam as barras usadas para a prática do balé. A comunidade também tinha uma certa desconfiança, já que todas as pessoas que tinham tentado fazer algum trabalho no morro tinham desistido. No primeiro dia de aulas lá estava Teresa, a menina de quatro anos que perguntou quando Vânia ia ensinar balé para ela!

    Aos poucos, as crianças foram começando a chegar. “Quem mais precisa são aquelas crianças que você olha e pensa que ‘não vai dar certo’, faz uma diferença na auto-estima delas. E isso também faz uma diferença imediata no rendimento escolar”, conta Vânia. Por causa da violência no Morro da Coroa, muitas vezes ela não conseguia dar as aulas. Depois de um tempo o balé foi transferido para um outro espaço e Vânia deixou de trabalhar para se dedicar exclusivamente ao projeto. Nascia, assim, o Ballet de Santa Teresa, em homenagem a Santa Teresa D’Ávila, a padroeira da educação.

imageAo todo, mais de três mil crianças já passaram pela instituição que se expandiu e também passou a oferecer aulas de música – sopro, corda, percussão e canto – leitura e escrita. Anualmente a equipe da instituição organiza um livro com textos dos alunos e produz um espetáculo baseado em uma temática histórica. O projeto recebe dois patrocínios que são insuficientes para o pagamento de todas a despesas: os professores, todos formados, costumam ter os salários atrasados. Com tantas dificuldades Vânia já pensou até em desistir. “Vejo um desinteresse da sociedade em relação a arte e a cultura. É a cultura do ter em detrimento da cultura do ser”, reflete.

    Pergunto por Teresa, a menina que deu origem a tudo isso, e Vânia me diz que até hoje ela frequenta a instituição. Costuma dizer que a maior felicidade dela é saber que o seu sonho “ajudou a transformar a vida de tantas crianças”.

    Pergunto a Vânia o que ela sente ao olhar para trás e, dessa vez, ela me diz: “eu sinto aquele conforto em saber que eu não passei por esse mundo sem fazer nada por ninguém…”. Penso que Dona Raymunda, que lutou para criar as três filhas sem a ajuda de ninguém e não impediu que elas deixassem de sonhar, deve ter muito orgulho da filha. E ela me diz que a mãe, pedagoga, faz parte da diretoria da organização e até já deu aulas na oficina de psicomotricidade.

    Penso que juntas elas têm uma linda missão de compartilhar. Compartilhar sonhos. É isso.

sexta-feira :: 20 junho, 2014

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    Eu sempre sonhei em ter um cachorro. Quando morava sozinha quase comprei um shitzu lindo, bem bonachão, desses de madame. Com pena de deixar o bicho sozinho eu fui adiando o sonho… Mas no fundo o que eu queria mesmo era ter um cachorro grande. Eu via um golden retriever na rua e sempre pensava que ainda ia ter um. Quando eu e meu marido fomos morar juntos em pouco tempo começamos a falar nesse cachorro. Ele, que é surfista, disse que o nome ia ser Maui, em referência a ilha do Havaí. No final de abril de 2011 eu fui fazer uma reportagem e encontrei uma gatinha que não saiu do meu colo. Cheguei em casa decidida a comprar um bichinho, um gato que talvez desse menos trabalho. Uma amiga querida que tinha gatos e cachorros, ao saber das nossas intenções, me aconselhou: “pegue um cachorro, você vai ver que ele vai mudar sua vida.” E aí a gente achou que já era a hora.

    Maui chegou em nossa casa uma semana depois, em um sábado de manhã. No dia o dono do canil trouxe no carro um filhote de labrador – que já tinha destino certo – e dois filhotes de golden retriever para a gente escolher. Na hora em que meu marido segurou o bichinho no colo disse que não iria mais largá-lo. Maui era bem maior que o irmãozinho e tinha uma carinha irresistível. Quando fomos nos despedir do vendedor ele e o outro filhote choraram bastante por causa da separação. Maui tinha quarenta e cinco dias e tinha acabado de ser desmamado. Algumas vezes via meu marido sem camisa e ia cheirar o peito dele, abrindo a boca à procura do leite. Em outras me fazia desistir de sair de casa ao me olhar com cara de coitado. Um dia, quando ele estava com quatro meses, nós estávamos saindo do prédio, eu com salto alto, uma bolsa enorme, meu marido segurando a coleira. Quando ele abaixou para amarrar o tênis eu segurei Maui por dez segundos, tempo para ele tentar atravessar a rua e me derrubar de vez no chão. Por sorte, eu continuei segurando a coleira e pude ver quando um ônibus passou a dois metros de distância dele, fazendo meu coração disparar ainda mais e me fazendo agradecer muito a Deus por não ter soltado aquela coleira.

    Hoje, três anos depois, eu tenho que admitir que minha vida realmente mudou muito. Porque eu já não consigo dar uma voltinha no quarteirão sem parar para conversar com pelo menos dois estranhos que ele insiste em cumprimentar. Também não consigo passar um dia na praia sem ficar morrendo de vontade de voltar pra casa. Mesmo viajar, um dos meus verbos preferidos, já não tem a mesma graça de antes. Dia desses ele correu em direção a uma moradora de rua, encheu a moça de lambidas e ela me disse, sorrindo, que ele era um portal. Eu saí pensando quando é que nós, tão racionais, vamos ter aquela mesma capacidade de amar… Em meu casamento Maui foi o pajem, trazendo as alianças ao lado da nossa vira-lata Mia, que chegou em casa um ano depois. Ouvi de muitas pessoas que aquilo não ia dar certo e quando vi os dois chegando até o altar eu tive a certeza de que aquela festa não teria a mesma beleza sem a presença eles.

imageNa lua de mel fomos para o Havaí. Quando o avião foi aterrissando, vi a ilha de Maui e caí no choro. Nem sei direito explicar o porquê, só sei que na hora eu lembrei muito dele. Por sua causa, as minhas manhãs começam sempre da mesma maneira… A cara de felicidade que ele faz, todos os dias, ao me ver abrir os olhos, e o fato dele ficar sentado ao lado da minha cama me esperando acordar, fazem a minha vida mais feliz. As vezes, eu agradeço por ter a oportunidade de conviver com ele… Mas ele me olha com tanto amor que nem sempre é fácil diferenciar algum sentimento em especial. Meu cachorro me olha como se estivesse me descobrindo pela primeira vez… Ainda não consigo pensar na possibilidade (real) de não tê-lo na minha vida.

    Sei que pra muita gente parece estranho sentir tanto amor assim por um animal mas pra mim Maui sempre foi minha família. Eu não sei se ele poderia ser ainda mais feliz do que é mas tenho certeza de que não existiria possibilidade dele ser mais amado. E, por mais que eu tente, me sinto incapaz de traduzir com palavras tudo o que ele já me ensinou, tudo que ele significa pra mim. Sentimentos assim realmente são inacessíveis às justificativas. Só através do coração é possível compreendê-los.

quinta-feira :: 12 junho, 2014

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    Marisol nasceu na Cidade do México. Ela é uma morena alta, com longos cabelos cacheados, um sorriso cativante, muito simpática e comunicativa. Não por acaso, ela escolheu cursar uma faculdade de comunicação em sua cidade natal. Aos 21 anos ela só conhecia o Brasil através de sua irmã Maggie, que namorava um brasileiro e estava estudando português. Quando soube que teria que escolher dois idiomas estrangeiros para estudar durante a faculdade, Marisol achou que seria interessante aprender o idioma do Brasil. E, assim, ela é a amiga Natália se inscreveram para o curso do professor Romildo, um paulista que lecionava na Universidade Nacional Autônoma do México.

    Algum tempo depois Romildo decidiu fazer um projeto de intercâmbio cultural. Cada aluno teria que escrever uma carta em português e essas correspondências seriam publicadas em classificados de jornais brasileiros. Marisol achou aquilo um vexame e, junto com Natália, adiou o quanto pôde a realização da tarefa. Mas um dia recebeu um intimato do professor paulista, que disse que elas iriam ser reprovadas se não participassem daquele projeto. Então elas tiveram que escrever as seguintes palavras: “sou estudante de comunicação em jornalismo e gostaria de ter contato com estudantes brasileiros para praticar a língua portuguesa”. A carta poderia ser enviada para o Rio de Janeiro ou São Paulo, ela e Natália tinham decidido que iriam enviar para a mesma cidade do professor Romildo mas, sem querer, na hora de preencher a carta Marisol escreveu a sigla RJ. Era final dos anos 90, a internet ainda não era tão popular, e na carta Marisol escreveu seu endereço e o telefone de casa.

    Meses depois, em um domingo, ela recebeu um telefonema de Stênio, um carioca que tinha lido o anúncio. Stênio fazia triathon e já tinha visitado o México há algum tempo. Quando pisou pela primeira vez lá ele sentiu que ainda iria se apaixonar por uma mexicana e chegou a dizer isso em tom de brincadeira aos amigos. Depois da viagem ele começou a aprender espanhol com uma professora peruana que estava morando no Rio. Stênio estava fumando um cigarro quando viu o anúncio no jornal. Tinham outros parecidos mas o nome Marisol – uma abreviação de Maria Soledad – despertou a atenção (e, por que não dizer, a intuição) dele. No primeiro contato por telefone eles se falaram pouco mas ele combinou que ligaria novamente. Dias depois Stênio disse a ela que tinha enviado uma carta. Demorou dois meses para chegar e toda semana ele ligava ansioso pra saber se Marisol já tinha recebido a encomenda. Assim, eles começaram a conversar mais até o dia em que a carta finalmente chegou ao México.

    Stênio escreveu sobre a vida dele no Brasil, o interesse pelo espanhol e colocou uma foto dele junto com a carta. Marisol lembra que o achou atraente e, sabendo que ele estudava psicologia, comprou um livro para enviar de presente. Junto com o livro, ela colocou algumas fitas com suas músicas preferidas e uma foto dela. Quando a encomenda chegou no Rio de Janeiro Stênio estava no trabalho. A mãe dele, já sabendo o quanto ele esperava por aquilo, ligou para o filho para avisar. Meio sem jeito, fez o que o filho pediu a abriu a embalagem. Ao ver a foto de Marisol, ela disse a ele: “eu acho que você vai gostar”. Ouviu o filho desligar o telefone do outro lado da linha e em pouco tempo o viu entrar em casa. Ele olhou tudo o que havia recebido e ficou com os olhos marejados, naquela semana havia comprado aquele mesmo livro de psicologia…

    Marisol e Stênio passaram a se falar cada vez mais, ele gostava de brincar dizendo que ainda ia casar com ela. A mãe dele chegou a cortar o fio do telefone numa tentativa de evitar as contas que chegavam com valores absurdos! O professor Romildo também se interessava pela história deles (Marisol foi a única da turma a receber uma resposta naquela tarefa). Cinco meses depois, Stênio foi ao México e Marisol foi com a irmã buscá-lo no aeroporto. Ela estava muito nervosa e sabia a roupa que ele iria estar usando. Ainda hoje Marisol fica com as mãos geladas ao recordar esse momento… O primeiro encontro foi breve e um pouco tenso, a irmã de Marisol era quem mais falava. Mas o brasileiro ficou um mês no México, tempo suficiente para que eles se conhecessem melhor, se beijassem pela primeira vez e pra que ele entregasse uma aliança pra ela na hora de voltar para o Brasil.

    Seis meses depois, foi a vez dela pisar no Brasil pela primeira vez. Stênio comprou a passagem de presente para ela, na época ainda se usava aquela impressão em papel carbono. Um acidente no escritório da companhia aérea queimou todos os documentos e fez com que essa passagem nunca fosse cobrada! Em 20 de junho de 1998 eles se casaram na igreja de Nuestra Señora de la Soledad, na Cidade do México. Marisol se mudou para o Rio de Janeiro poucos dias depois, em um mês de junho que também comemorava a chegada de uma copa do mundo, há dezesseis anos. Gian Luca, o único filho do casal, nasceu cinco anos após o casamento.

imageMarisol foi minha professora de espanhol, ela foi uma das pessoas que me fizeram aprender a amar esse idioma. Nós fomos além e também nos tornamos amigas, embora a gente se encontre menos do que eu gostaria. A história de amor dela é um daqueles casos que ouvimos pra não esquecer nunca mais. São aquelas histórias que me fazem lembrar de como o Universo realmente se encarrega de todos os detalhes importantes…

O destino deve ser um senhor com muita habilidade para imaginar os pequenos detalhes de um grande roteiro.

terça-feira :: 27 maio, 2014

    Foi no restaurante em que trabalha como garçom que Felipe conheceu Patrícia. Ele lembra que ela já tinha ido algumas vezes lá e eles sempre se olhavam. Naquela noite, em julho de 2013, Patrícia estava com um grupo de amigas e Felipe conhecia uma delas. Essa amiga em comum colocou um papel no bolso dele, era a marca de um beijo. O beijo de Patrícia para ele.

    Naquele mesmo dia os dois trocaram telefones. No terceiro encontro, já sabiam que era um namoro. “No início a gente se olhava e comentava que tudo estava acontecendo muito rápido. Hoje entendo porque tinha que ser… Foi tão forte, tão rápido, tão intenso”, ele recorda. Patrícia sonhava em ser mãe mas sabia que seria difícil. Um ano antes de conhecer Felipe, tinha enfrentado um câncer de mama. A doença estava estabilizada e Patrícia seguia trabalhando na Polícia Federal quando, aos três meses de namoro, o câncer voltou a se manifestar no fígado. Ela recomeçou as sessões de quimioterapia e, em meio aos exames, descobriu o que parecia ser impossível: estava grávida de dois meses.

    A equipe médica que acompanhava Patrícia decidiu suspender o tratamento para que o bebê tivesse chances de sobreviver e a doença passou a ser monitorada com frequência. “Ela ficou radiante, começou a fazer planos, entrou logo na internet e foi olhar as coisas para o quarto”, conta Felipe. Apaixonados, eles já falavam em casar mesmo antes daquela descoberta. No dia 15 de março deste ano eles oficializaram a união em um cartório e em seguida receberam oitenta amigos para uma comemoração em um restaurante. Passaram a lua de mel em um hotel fazenda e na volta para casa ela começou a organizar os armários para a chegada do filho, um menino.

    Tudo parecia bem mas Patrícia começou a reclamar de dores fortes na coluna, que depois também se estenderam para a região do estômago. Os exames, que quinze dias antes não haviam detectado nada, dessa vez indicaram que a situação era grave. Patrícia foi internada e no dia 14 de abril os médicos fizeram uma cesárea para interromper a gestação de seis meses e poder continuar o tratamento. Antes de seguir para o Hospital do Câncer de Barretos, ela viu o filho. Através da incubadora ela pôde tocar em Arthur, que naquele instante também já lutava pela vida como a própria mãe.

    Os médicos tentaram uma terapia alternativa para salvar Patrícia, que não tinha mais condições de seguir com a quimioterapia. Sete dias após o nascimento do filho ela pediu a uma amiga que estava no hospital com ela que ligasse para Felipe. Com dificuldade de respirar, ela conseguiu dizer ao marido :”vem”. Felipe perguntou se ela esperaria por ele e Patrícia respondeu que sim, mas não pôde cumprir a promessa. Quando Felipe chegou ao hospital ela já estava em coma induzido e naquele mesmo dia faleceu.

    Arthur continua internado em um hospital particular, o único na cidade de Araraquara (SP) que tinha condições de salvar a vida de mãe e filho. Os amigos da família criaram uma campanha no facebook para arrecadar dinheiro para as despesas da internação, que já somam 115 mil reais. O bebê ainda deve ficar internado por mais quarenta dias mas está respondendo bem ao tratamento. “A vontade dela de ficar para cuidar dele era maior que tudo. Eu quero mostrar para ele o valor da vida que ela valorizava tanto, ela não conseguiu continuar mas trocou a vida dela por a dele”, diz  o garçom.

    A página “Amigos da Patrícia, Felipe e Arthur” foi curtida por mais de 25 mil usuários na rede social. Até o momento a campanha conseguiu arrecadar mais da metade do valor da internação do recém-nascido. “As vezes a gente vê tanta coisa triste e pensa que esse mundo tá perdido. Mas numa hora dessas é que a gente vê a solidariedade das pessoas. Eu tenho recebido tanto apoio, não só financeiro, mas gente que me ligou para dizer ‘olha, eu não tenho dinheiro mas tô te ligando aqui do Mato Grosso pra te dar meu apoio’”, revela.

    O pequeno Arthur ainda não sabe mas um dia, se Deus quiser, ele ainda vai entender o tanto de amor que pode envolver uma única vida.

Foto: Su Casuscelli

Foto: Su Casuscelli

terça-feira :: 13 maio, 2014

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    Na primeira semana que eu cheguei no Rio de Janeiro eu conheci Janete. Ela trabalhava na casa da proprietária do apartamento em que eu fui morar e, assim, acabou se tornando minha diarista também. A gente se deu bem logo de cara… Sempre achei que ela trazia leveza pra minha casa, em pouco tempo passei a chamá-la de Jan. Ela tem uma filha cinco anos mais nova que eu e acho que, com o tempo, ela foi desenvolvendo um amor meio maternal por mim também. Jan tem um jeitinho simples, um sorriso sincero e uns olhos de quem tá vendo a gente por dentro.

    Umas das coisas que chamou a minha atenção desde o começo foi a relação dela com o marido, Antônio. Por causa do trabalho dela eles só se encontram nos finais de semana e Antônio liga todas as manhãs para saber como a esposa está… “Ele diz que tá com saudade, que quer que chegue logo sábado”, conta. Ela lembra que quando começou a dormir fora de casa sofreu muito com saudade mas resistiu. Jan sempre falou do marido de um jeito tão bonito, aquelas histórias que confirmam o quanto a felicidade realmente é simples. Faz 34 anos que eles se conheceram em um churrasco na casa de um amigo em comum. Marcaram de sair depois e quando viram já era namoro.

    No início do relacionamento o casal saía bastante. Demoraram sete anos para casar porque primeiro queriam a própria casa. A mãe dela deu um terreno nos fundos de casa, Antônio ajudou na obra e depois casaram na igreja. Dois anos depois veio Aline, a única filha e o maior orgulho. “Ela é tudo para mim, estudiosa, trabalhadora…”, descreve Janete. Depois de alguns anos a família se mudou para Vigário Geral, no subúrbio do Rio de Janeiro, mas quando aconteceu a chacina de 1993 ela ficou com medo daquele lugar. Conseguiram comprar uma nova casa, em uma região mais afastada. Religiosa, ela acredita que teve ajuda: “não tem coisa melhor do que a relação com Deus, conversar com Ele. Tanta coisa eu já pedi e Ele me deu…”.

imageSorrindo, Jan me diz que é muito feliz e não sente falta de nada. Do futuro ela só quer um bom casamento para Aline. Do passado a pior lembrança é uma breve separação de Antônio, ocorrida há seis anos. Depois de um mês, tudo se resolveu. “Não sei ficar sem meu negão, me sinto tão feliz junto dele, sou muito apaixonada por ele”, diz suspirando. Olhando pra ela eu me pego pensando que a felicidade é mesmo a gente que constrói… Jan é do tipo de gente que aprendeu a driblar as adversidades da vida e a dar valor ao que realmente custa caro. Ou melhor, àquilo que não se pode vender…

quinta-feira :: 1 maio, 2014

imageMúltiplos são os caminhos nessa nossa aventura que é a vida.
A estrada conduz a escolhas que dão medo,
curvas que trazem desalento
e a uma constante necessidade de se transformar.
Pelo caminho a gente descobre que, no fim,
é tudo uma questão de vontade.
O desejo da alma é a chave mágica pra vida,
evidente e tão bem escondida dentro de nós mesmos.

 

quarta-feira :: 23 abril, 2014

    João Carlos nasceu em Fortaleza e sempre amou o surfe. Filho de uma mulher religiosa, cresceu alimentando o sonho de se tornar um missionário na África. Um dia ele estava chegando na casa da mãe no Titanzinho (uma praia localizada em uma região de vulnerabilidade de Fortaleza) quando viu uma aglomeração na rua. Um homem tinha morrido, as pessoas estavam em volta e o sangue escorria pelo chão. Era Mero, seu companheiro de surfe na infância, que depois de adulto se envolveu com o tráfico. Ele não quis se aproximar mas, de longe, viu uma criança muito magra, uma criança desnutrida passando entre as pernas das pessoas para ver de perto aquilo que ele não teve coragem. E ali ele pensou “minha África é aqui.”

    No dias seguintes não conseguiu mais dormir. Sentia que precisava fazer alguma coisa e ele sabia surfar… Três meses depois nascia a Escola Beneficente de Surf com o objetivo de tirar os garotos da rua e resgatar a cidadania através do surfe. Sem nenhuma ajuda João Carlos improvisou: juntou cinco meninos da vizinhança na sala da própria casa. Em pouco tempo o presidente da associação de moradores ofereceu uma sala e os alunos começaram a chegar. Ele lembra que os meninos perguntavam quando iam para o mar e ele – sem as pranchas – dizia que antes eles precisavam entender o esporte. Criou o surfe imaginário, com desenhos no chão representando os limites da prancha e a marcação das ondas… Foi chamado de louco mas as poucos os garotos iam se interessando pelas aulas.

    Quando a escola completou um ano uma marca de roupas esportivas decidiu patrocinar o projeto. Foi quando as pranchas finalmente chegaram e os alunos puderam praticar os ensinamentos no mar. Um dia, João Carlos recebeu um convite do patrocinador para um seminário. E, perplexo, ouviu dois australianos falarem sobre o conceito de “mind surfing”, que em muito se assemelha ao do surfe imaginário. ” Eu não tinha nenhum recurso mas tinha que arranjar um jeito de prender aqueles meninos na sala, para eles não ficarem na rua, na ociosidade. De noite, eu ficava ouvindo o barulho das ondas e pensando em como eu ia ensinar. Só pode ter sido Deus mesmo que me transmitiu esse conhecimento”, acredita.

imageHoje, dezenove anos depois, a Escola Beneficente de Surf do Titanzinho também oferece aulas de alfabetização, capoeira, inglês, futebol e skate. A condição para frequentar o espaço é estar estudando. João Carlos, que é conhecido como Fera, ajudou a formar surfistas como Pablo Paulino, bi-campeão mundial na categoria Pro Junior. Ele também se orgulha ao dizer que um daqueles cinco meninos, aqueles cinco primeiros alunos que ele reuniu na sala da casa, se tornou presidente de uma ONG. No ano passado, a banda Manu Chao reuniu três mil pessoas em um show na pista de skate para comemorar o aniversário da escola. Foi através de uma organização internacional que o grupo soube do trabalho que vem sendo desenvolvido por lá. Atualmente a escola não tem patrocinador e os recursos continuam sendo insuficientes até para o pagamento dos funcionários: todos os professores trabalham como voluntários. Mas a escola continua sendo uma referência para setenta jovens da comunidade. E João Carlos segue com seu sonho… “Quando a gente ama a gente faz, a gente dá um jeito. Porque o amor supera tudo”, ensina.

terça-feira :: 15 abril, 2014

    Amigo é quem faz a gente se sentir em casa, não importa onde a gente esteja. Alguém que a gente ama tanto, mas tanto, que fica até difícil imaginar como seria passar por essa vida sem ele (ou ela). Tem amigos que a gente não esquece como conheceu e tem outros que a gente até faz um esforço mas não consegue lembrar direito como eles entraram em nossa vida, parece que estiveram sempre lá. Pensando no amigo a gente agradece a Deus e também pede por ele… Um amigo é alguém que conheceu todas as nossas versões e escolheu ficar com a melhor delas.

    Só tem um amigo quem aprendeu a se doar. Uma boa dose de empatia e lealdade também caem bem. Às vezes a gente não tem nada a ver mas conviver com aquela pessoa nos ensina a ter mais respeito. Amar um amigo é querer tão bem a ele… É sair de casa cansado porque tem alguém na rua precisando do nosso melhor sorriso (e voltar pensando que valeu a pena ter ido só pra ver aquele sorriso de volta). É morar longe e pensar todo dia se isso vale a pena. Até o dia em que a gente se reencontra pra ter a certeza de que nada pode mudar, que não existe distância pra quem mora do lado de dentro.

    Ganhar um amigo é ganhar esperança, é como ganhar na loteria da vida mais uma vez. Perder um amigo é perder uma parte do que foi vivido. É se perder de você mesmo… Se enganar com um amigo dói tanto que a gente até morre um pouquinho, mas na maioria das vezes passa. Em alguns casos é preciso perdoar esse amigo, é quando a mágoa não consegue ser maior do que tudo aquilo que a gente já viveu junto…. São Tempo faz muito bem às amizades (como faz bem a quase todas as coisas, aliás). Os bons amigos também têm o costume de se disfarçar de cônjuges, de mães, filhos, irmãos e até de animais. É porque o amor é quem faz moradia para a verdadeira amizade. Desconfio que o melhor amigo da amizade também seja o amor.

imageJá chorei por causa da dor de uma grande amiga e parti o coração de outra que viu a minha dor. Já guardei um segredo importante e percebi que sabiam um outro que eu pensava esconder. Tomei muito esporro de uma amiga que insiste em fazer papel de mãe e amei os filhos de algumas como se eles também fossem um pouquinho meus. Um dia eu também confundi amizade com amor e tempos depois encontrei no meu marido o meu melhor amigo de todos os tempos… Que seria dessa vida sem o carinho de um amigo?

Confidente, parceiro, extrovertida, conselheiro, engraçado, generosa, cismada, tímido, risonha, motivo de preocupação ou de orgulho… Não importa a característica que tenham, os bons amigos serão sempre os guardiões daquilo que a gente traz de melhor dentro da nossa pluralidade.

quarta-feira :: 9 abril, 2014

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    Hoje eu vou contar a história de alguém que eu não pude conhecer. Acho que de todas as pessoas que eu gostaria de ter conhecido essa foi a que fez mais falta. Mas a vida não é feita só de histórias com finais felizes e a saudade, embora doída, também é uma forma de amar. Maria Luiza era uma carioca linda, com os olhos claros, um sorriso acolhedor e uma gargalhada que ainda hoje é lembrada por quem a amou.

    Aos 19 anos ela conheceu Sergio, seu futuro marido, em uma viagem para o interior do Rio. O namoro começou pouco tempo depois e, em dois anos, eles se casaram. “Um traço muito interessante é que ela tinha uma ligação com crianças e idosos. No Leblon, ela conhecia todo mundo do lugar onde a gente morava” relembra ele. Juntos, eles também fizeram uma faculdade de administração, ele entrou um semestre antes que ela. Quem os viu juntos jura que aquele amor resplandecia. Com cinco anos de casados começaram a vir os filhos… O sonho dela era ser mãe de uma menina mas o destino reservou três meninos para aquele jovem casal feliz. Na chegada do caçula, Maria Luiza precisou de alguém para morar em casa e ajudar a cuidar dos meninos. E assim, Maria entrou na vida daquela família para nunca mais sair. Até no nome elas tinham semelhanças.

    Maria é mineira, cozinheira de mão cheia e em pouco tempo as duas se tornaram amigas. A afinidade despertava até o ciúmes de Dona Zélia, a mãe de Maria Luiza que também morava com a família. “No final da tarde eu ia levar um docinho pra Maria Luiza, ela sempre gostou de doce. E dona Zélia perguntava logo se não tinha outro pra ela”, relembra Maria, às gargalhadas. Sergio também guarda outra lembrança feliz: “ela era muito discreta mas a forma como ela falava com uma pessoa desconhecida, uma vendedora, era sempre especial. Ela fazia uma aproximação com presença, nunca era como se fosse uma pessoa anônima”.

    Com 47 anos ela foi surpreendida com a notícia de que tinha um cãncer. A amiga Dulce lembra que ao ao saber da doença ela pensou no filho mais novo, que tinha 12 anos: “como ele vai ficar sem mim?”. E seguiu em frente. Foi operada, tentou a quimioterapia e não perdeu a esperança. Colocava um lenço na cabeça e ia buscar os filhos na escola, ia fazer supermercado. Quando chegou a hora de ser internada ligou para Dulce e pediu que levasse maquiagem para o hospital para disfarçar a mancha que tinha aparecido com uma queda. Dizem que a voz dela continuou firme ao telefone até o dia em que ela entrou em coma. Às vezes Maria Luiza acordava do coma e chamava Maria, a fiel escudeira, para pedir que cuidasse dos fillhos e da casa. Na última vez, já sem conseguir falar, ela mostrou os três dedos da mão. Eram os três filhos, o motivo de sua força. Ela partiu cedo, aos 49 anos, e eu nunca ouvi alguém que conseguisse falar dela sem se emocionar.

imageFoi há quase quatro anos que ela entrou na minha vida, quando eu conheci meu marido. Ele é o filho mais novo de Maria Luiza. Tem uma tatuagem com o nome da mãe nas costas e me fez prometer que se nosso primeiro bebê for uma menina vai ter o mesmo nome da avó. Vendo o amor dos pais, ele guardou as recordações mais lindas da breve convivência que teve com a mãe. Em nosso casamento colocamos o nome dela no convite e ao lado estava escrito “para sempre”. Foi Maria quem acompanhou meu marido na entrada da cerimônia… Ela nunca abandonou a casa de Maria Luiza, cumprindo a promessa que fez à patroa. “Foi por ela que eu fiquei naquela casa todos esses anos. Foi por amor à ela, porque ela era muito boa”, foi o que ouvi de Maria na véspera do meu casamento, me fazendo pensar que mesmo à distância minha sogra de alguma forma ainda conseguiu proteger os filhos. Amou o suficiente para nunca ser esquecida.

sexta-feira :: 4 abril, 2014

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    Eu sou a caçula de quatro filhos. Meus pais são médicos e quando se conheceram cada um já tinha um filho do primeiro casamento. Pouco tempo depois eles resolveram tentar ter mais um filho juntos e não demorou muito para descobrirem que estavam esperando minha irmã, Paloma. Aos quatro meses de gravidez eles se mudaram para Toronto, no Canadá, para fazerem uma especialização e minha irmã nasceu em um verão muito quente naquele país  conhecido pelo frio. Eu nasci um ano e cinco meses depois, em um verão escaldante em Salvador.

    A diferença pequena entre eu e Loma fez com que a gente crescesse muito próximas. Lembro que no curso de inglês a professora tinha que separar a gente de lugar para conseguir dar aula e perguntava se, com tanto assunto para conversar, nós éramos mesmo irmãs. Foi por causa dessa ligação que, aos 20 anos, eu decidi que iria estudar inglês em Toronto, a cidade que minha irmã nasceu. E no dia 04 de dezembro de 2003 eu embarquei sozinha para terminar de escrever a história da minha família no Canadá.

    Nos primeiros dias senti uma tristeza devastadora se aproximando. Eu tinha deixado um namorado em Salvador e me desesperava pensando que em pouco tempo iria passar o Natal, o reveillon e o meu aniversário sozinha naquele inverno. No primeiro dia de aula a professora perguntou de onde a gente vinha. Um dos últimos a falar foi um menino que disse “Salvador”. “Salvador?!”, eu cheguei a gritar!

    No final da aula ele veio conversar comigo. “Não fique assim não, a gente vai sair, fazer amigos e você vai ficar feliz de novo”. Era a primeira pessoa que me dizia aquilo em uma semana e isso já fez com que eu simpatizasse com Roger, meu conterrâneo. Depois disso ficamos melhores amigos, ele até começou a me esperar no corredor na hora do almoço. Um dia eu liguei pra falar com minha mãe e ouvi uma notícia inacreditável. “Estou mandando sua irmã pra ficar duas semanas aí, pra você não passar o Natal sozinha…” E o meu assunto com meu amigo passou a ser a minha irmã. Eu só falava do quanto eu a amava, do quanto ela era importante pra mim. Pra ela, eu também falava muito dele…

    No dia seguinte que Loma chegou em Toronto ela foi me visitar na nossa escola e apresentei ela a Roger. Lembro que eles disseram: “ahh então, é você que é Paloma né?” “E você é Roger?”, Dois dias depois combinamos com um grupo grande de ir para uma boate. E antes a gente ia fazer uma “pré” no hotel em que minha irmã estava. Mas bem na hora marcada caiu uma nevasca e os ônibus pararam de circular. Lembro que cheguei no hotel preocupada, com duas horas de atraso, e encontrei minha irmã e meu amigo conversando. “Larinha, você tinha razão, ele é mesmo especial”, foi o que ela me disse assim que teve uma brecha. Por obra do destino, de todas as pessoas, ele foi o único que conseguiu chegar no horário. Por causa disso eles ficaram conversando por mais de duas horas sem mais ninguém por perto…

    Uma semana depois era o dia do reveillon. Fomos todos para a Nathan Phillips Square, uma grande praça em Toronto. E na hora da contagem regressiva para o novo ano eles deram o primeiro beijo. Cinco, quatro, três, dois, um… Não demorou muito para eu perceber que ela estava apaixonada. Roger voltou para o Brasil poucos dias depois. Quando o dia de Loma ir embora começava a se aproximar eu chorava, ficava arrasada e por causa disso ela adiou a passagem duas vezes e o que era pra ser uma visita de quinze dias durou um mês. Quando finalmente chegou a hora dela ir embora eu abri minha caixa de email e encontrei muitas mensagens dele, ansioso para saber qual era o dia em que ela iria voltar. O resto da história vocês já devem imaginar: eles se reencontraram e, no Festival de Verão de 2004, escreveram mais um capítulo daquele romance. O namoro veio logo em seguida e eu tenho que dizer que, sem dúvida, eles são um dos casais mais felizes que eu já conheci. Foi vendo os dois juntos que comecei a entender que amor bom é aquele que transforma a gente em alguém melhor.

imageTrês anos depois da viagem eles se casaram em Salvador. Ela queria que eu entrasse com as alianças, mas fiquei com medo de me emocionar demais… Quando ouvi o padre contar que aquele amor tinha começado em Toronto, a mesma cidade em que ela nasceu, eu me peguei pensando em como Deus às vezes é um grande roteirista… A lua de mel foi no Canadá e lá eles tiraram uma foto se beijando na mesma praça onde tudo começou. Falando sobre o amor deles e vendo a reação das pessoas eu comecei a entender melhor minha paixão por contar histórias. Ainda hoje, dez anos depois, eu adoro contar todos esses detalhes que vi tão de pertinho… Quando Deus me transformou no cupido da minha querida irmã.

terça-feira :: 1 abril, 2014

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    Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu a dor da saudade. De alguém, de alguma coisa, de um tempo, de um lugar. A saudade tem cheiro, trilha sonora e hora marcada pra chegar. Mas às vezes ela também vem sem avisar. Há quem tente disfarçar, varrendo a saudade pra debaixo do tapete parece mais fácil deixar tudo como está. Pra essas pessoas, ela costuma ser ainda mais implacável… Saudade é sentimento que não se deixa enganar.

    Moraes Moreira pediu que ela não viesse matá-lo e Dominguinhos disse que trazia a saudade na mala. Para Olavo Bilac ela é a presença dos ausentes e Miguel Falabella definiu que a saudade é, basicamente, não saber. Eu diria que a saudade é uma vontade que não passa. A vontade do beijo, do longo abraço, de ouvir a risada, os conselhos, vontade de sentir outra vez o cheiro, de fazer as pazes, de comemorar junto ou só vontade de olhar mesmo pra quem a gente ama de verdade.

    Feliz é quem sente saudade de quem ainda pode voltar; olhando assim, a saudade é até tempero pro amor nosso de cada dia… Mas e quando a saudade é de alguém com quem já não se pode estar? Pra esses, Drummond escreveu: “não importa a distância que nos separa, há um céu que nos une”. Porque a saudade é também uma forma de reviver quem a gente ama. E, enquanto estiver presente no coração de quem ainda vive, fica assim um pedaço daquela pessoa inacessível à própria morte.

image Dizem que a saudade é um sentimento brasileiro mas eu desconfio dessa verdade. Talvez nós, mais apaixonados que outros povos, tenhamos apenas definido melhor esse mal sem remédio. Certo mesmo é que quem já amou viu de perto o que é saudade (e quem nunca amou?). Fortes são os que sabem que, sendo essa uma batalha perdida, melhor mesmo é acalentar essa dor. E já que a saudade se alimenta do amor eles também aprendem a alimentar o próprio amor com a saudade.  Conseguem enxergar a beleza que existe dentro desse sentimento… A capacidade de manter vivo aquilo que não mais pode ser.
quinta-feira :: 20 março, 2014

    Ultimamente ela estava falando sobre os preparativos para o aniversário dos filhos gêmeos, que completam 10 anos no próximo domingo. Ia fazer um churrasco em casa, chamar os amigos da vizinhança, do jeito que ela mais gostava. Cláudia era alegre e adorava uma confraternização. “O dia a dia dela era só riso”, lembra a filha mais velha, Thaís. No dia a dia Cláudia acordava às 4:40 da manhã e às 7:00 batia o ponto no hospital onde trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Não saia de casa sem antes tomar um cafezinho, sempre levava um pouco para as vizinhas ou as via entrando em casa, rindo e trazendo para ela o café já feito. A filha diz que nessa hora elas sempre faziam uma bagunça boa…

    A vida no Morro da Congonha, subúrbio do Rio de Janeiro, era feliz mas Cláudia temia pela segurança do filho adolescente, de 16 anos. Pedia a ele que não ficasse na rua, com medo de que o confundissem com um bandido e fizessem “alguma covardia”. Às 18 horas ela retornava do hospital e reencontrava o marido Alexandre, com quem estava há 19 anos, e os oito filhos, quatro que ela teve e mais quatro filhos da irmã que ela criava. Há dois anos sugeriu que os sobrinhos passassem as férias na casa dela e os meninos, que moravam com o pai, nunca mais quiseram sair de lá. O pai dos meninos concordou e, assim, a família dela duplicou o número de filhos.

    O dinheiro era pouco para todo mundo mas Cacau, como era chamada por todos, não gostava de deixar a vida passar em branco. No ano passado organizou uma festa de São João para a família e os vizinhos; no aniversário da filha, foi a vez de fazer um strogonoff pra comemorar. Já no último carnaval, Cacau cozinhou um panelão de dobradinha, comprou refrigerante, pão e lingüiça… Juntou a família e os amigos e teve um dia feliz, sorrindo, conversando e tomando uma cervejinha junto de quem ela mais amava. Há alguns dias ela saiu de casa para comprar pão e mortadela, era um dia comum, mas ela não voltou. Foi baleada pela polícia.

imageEu chegava de uma viagem, liguei a televisão e fiquei atônita com as imagens daquela mulher sendo arrastada. Lembrei de uma outra tragédia, a do menino João Hélio. Só que dessa vez era a polícia que estava arrastando Cláudia… Seria só mais um número, não fosse aquele porta-malas aberto. Tanta brutalidade que faz até a gente querer sair da zona de conforto. Eu tentei saber quem era Cláudia e Thaís me disse que foi até bom relembrar como a mãe era de verdade. Ultimamente, ela só tem falado sobre a tragédia… No próximo fim de semana, no aniversário dos gêmeos, uma família vai estar de luto. E todo um país também.

sexta-feira :: 7 março, 2014

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    Era um domingo de verão insuportavelmente quente no Rio de Janeiro e os amigos chamavam para ir à praia. Confesso que nessa época do ano eu vou à praia mais tarde mas nesse dia eu e meu marido acabamos gostando da ideia de ir encontrar o grupo. Duas horas depois saimos da Venâncio Flores, no Leblon, conversando, e distraídos seguimos na direção contrária a que estava o nosso carro. Depois de algumas ruas encontramos um conhecido do meu marido, que segurava um cachorro lindo. Tinha os olhos esverdeados, o pelo bem preto e parecia ser um pit bull extremamente dócil. Zé, o conhecido, dizia que o animal tinha sido encontrado há três dias vagando pelas ruas e foi acolhido pelos funcionários de um clube, que teriam que colocá-lo novamente na rua quando o local fechasse. Com pena do animal, Zé resolver levá-lo para casa, mesmo sabendo que não poderia ficar com ele. Passou três dias andando pelo Leblon inteiro atrás de uma pista do animal e nada. Colocou a foto no facebook, compartilharam mas o dono não apareceu.

    Nós já tínhamos dois cachorros e a ideia de ter um terceiro não passava mesmo pela minha cabeça. Antes de voltar para casa ainda cruzamos com os dois mais uma vez, quando paramos para fazer um lanche. A gente sabia que fugir daquela responsabilidade ia contra nosso instinto e eu prometi a meu marido que se em quatro dias não aparecesse alguém para cuidar daquele cachorro nós iríamos levá-lo para nossa casa. Só que muito antes desse prazo, no dia seguinte, dia de São Sebastião, o padroeiro do Rio, Zé ligou para a gente informando que alguém tinha desistido de ficar com o animal e ele já não sabia mais o que fazer… E nós soubemos.

    Com o carro trancado por um vizinho saimos a pé para buscá-lo, andando por cerca de meia hora no sol. Ele chegou com um olhar bem triste e logo tentou se enturmar com os nossos cachorros. Em poucos dias eles já corriam pela casa juntos, em uma brincadeira barulhenta. Decidimos chama-lo de Jimi mas confesso que ele demorou alguns dias para responder. A veterinária atestou o que a gente já suspeitava: ele ainda era filhote e não tinha nenhuma doença. Encantados, nós começamos a dizer “esse a gente não dá, não vende e nem empresta mais”… Em uma semana contabilizamos uma bermuda, uma camisa, um par de havaianas, uma bonequinha russa, uma almofada, um acessório de limpeza de câmera, um carregador, um travesseiro e um colar destruidos, embora Jimi seja o cachorro mas dócil que eu já vi na vida. O contraste maior acontecia mesmo era na rua, onde percebíamos o preconceito das pessoas em relação a um pit bull.

    Nove dias após o dia de São Sebastião o dono de Jimi apareceu. Ele estava viajando quando o animal fugiu no meio de um temporal – cheio de raios e trovões – que até danificou a estrutura do Cristo Redentor. Inconformado, o dono saiu andando pelo Rio de Janeiro em busca do cachorro até que encontrou uma pessoa no Leblon que tinha visto o animal andando com Zé e, assim, chegou até a gente. Ao falar com ele pelo telefone pude perceber o amor que ele sentia pelo cachorro… Contou que comprou o animal com dois meses e que eles dormiam na cama juntos. Desde a separação do bicho ele já tinha tido febre e não conseguia dormir direito. Mandou diversas fotos para comprovar a ligação dos dois e sugeriu que eu o chamasse de Colt, seu verdadeiro nome. Foi o suficiente para Jimi pular em meu colo e me encher de lambidas… E mais uma vez a gente teve a certeza do que deveria fazer.

imageO reencontro aconteceu no outro dia. Confesso que meu marido ficou arrasado por ter que dar adeus aquele animal lindo mas no fundo eu me sentia feliz. Sabia que Colt voltaria para seu dono e não existia ninguém que pudesse fazê-lo mais feliz. Embora fosse muito dolorido tirá-lo da minha casa eu sabia que aquele era o final certo para essa história… Quando os dois se reencontraram Colt pulou nos braços dele em uma euforia desmedida e o dono falava com ele, sentido pela fuga. Vou guardar em meu coração os dias felizes em que pude tê-lo na minha vida. Depois de devolvê-lo (que não é dar, vender nem emprestar) recebi uma mensagem do dono onde ele dizia que se ele não tivesse reencontrado seu cachorro ficaria feliz em saber que ele estava com pessoas como nós. Sem dúvida se pudesse voltar no tempo eu pegaria aquele caminho “errado” ao sair da praia outra vez…

quarta-feira :: 26 fevereiro, 2014

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    “Mãe, são três letras apenas as desse nome bendito. Também o céu tem três letras e nelas cabe o infinito…” Assim começa um poema de Mário Quintana, que tinha o dom de encontrar as palavras certas. Confesso que eu adoraria ter escrito aquelas frases para minha mãe. Quando eu penso em tudo de bom que ela já me deu eu me dou conta de que a melhor coisa foi a capacidade de acreditar em Deus. Foi ela que me ensinou que nada é impossível quando a gente tem Ele. Além da fé, minha mãe me ensinou as melhores lições que eu poderia ter aprendido. Usou para isso o melhor método: o exemplo. Ainda hoje quando alguém me decepciona eu escuto a vozinha dela me dizendo para ouvir o outro lado… Não seria exagero dizer que minha mãe transformou a vida de muitas pessoas, tornando o sonho delas possível. Talvez porque nunca tivesse encontrado alguém que fizesse isso por ela.

    Aos cinco anos ela saiu de Porto Seguro para estudar em Salvador. Deixou a família pobre no interior e foi morar em um internato. Como a família não tinha condições de pagar os estudos ela, ainda menina, ajudava fazendo o serviço de limpeza. E foi cultivando, em meio à vida difícil que levava, o sonho de ser médica. Ouviu de muitas pessoas que ela nunca conseguiria, não faltou quem lhe dissesse o pior. Se apegou a Deus e seguiu em frente. Mas antes de realizar o sonho engravidou de um menino, aos 17 anos. Casou com o pai da criança, que tentou convencê-la a desistir de estudar. O amor pelo sonho falou mais alto e, em uma época em que ainda não existia o divórcio, desafiou a sociedade se tornando uma mulher desquitada, aos 19 anos. No segundo vestibular conseguiu entrar no curso de Medicina. Trabalhava de dia, estudava à noite e precisou da ajuda de amigos para conseguir criar o próprio filho. Há alguns anos ela me disse que mais tarde soube que meu irmão sofria a cada vez que ela partia. E sentiu por não ter sabido disso a tempo.

    Com o passar dos anos se tornou uma endocrinologista conhecida em Salvador. Houve tempos em que atendia quarenta pacientes por dia, que esperavam meses para conseguir uma consulta com ela. Pra compensar o que sofreu, se dedicou a fazer o bem a quem encontrou pelo caminho. Gente como Têca, que foi trabalhar lá em casa quando minha mãe estava grávida de mim. Para retribuir o carinho que Têca teve com nossa casa minha mãe deu para a filha dela o mesmo que deu para a gente: a chance de estudar em uma boa escola, ter aulas de inglês, piano, uma viagem pra Disney aos quinze anos e a oportunidade de estudar em uma faculdade particular, dentre outras coisas. E Têca não foi a única a ser ajudada por minha mãe; lembro do orgulho que senti no dia em que a vi se oferecendo para pagar a faculdade de uma amiga, que queria voltar a estudar… Recentemente ela me surpreendeu contando que custeou um curso preparatório para que outra pessoa tivesse chance de passar no vestibular. E como esquecer o dia em que me fez chorar porque fez um plano de saúde para que o namorado de uma das filhas pudesse ser operado? Anos depois ele disse que rezaria por ela em todos os dias da sua vida.

    Têca também me disse que reza com uma outra finalidade: pede a Deus que não permita que a patroa imagequerida vá embora antes dela porque não aguentaria esse sofrimento. No meu casamento minha mãe permitiu que eu eu fizesse a festa dos meus sonhos. Quando agradeci a ela por ter me proporcionado aquilo ela respondeu dizendo que eu merecia o melhor, em tudo que ela pudesse me dar. Só que o melhor não está por vir… O que me aconteceu de melhor na minha vida foi a chance de conviver com alguém como ela. Disso eu nunca tive dúvida.

 

sexta-feira :: 21 fevereiro, 2014

    Existe um vale no meio da Chapada Diamantina que é um local diferente de tudo o que eu já vi. Um lugar que não pega celular, onde o tempo parece ter outro valor, uma vila que não tem asfalto porque os moradores acreditam que assim é possível resguardar mais o local. É um lugar que tive o prazer de conhecer há mais de dez anos, quando eu ainda morava em Salvador. Muito tempo depois, quando eu já era repórter de uma emissora de educação no Rio, eu recebi a missão de percorrer onze municípios da Chapada Diamantina para registrar um projeto de educação que estava mudando a realidade de muitas crianças da região. Nos últimos dias, nossa equipe iria conhecer o lugar onde tudo aquilo começou. Era lá mesmo, naquele vale que eu tinha aprendido a amar tantos anos antes. Alguns dias depois partimos para uma viagem onde percorreríamos dois mil quilômetros.

    Cybele, a idealizadora do projeto de educação, veio nos receber. Uma mulher bonita, com um sorriso largo e muita simplicidade. Só que em cada cidade onde a gente ia ela era recebida com uma certa comoção pelos moradores. Recebeu flores, fez discurso e aos poucos a gente foi entendendo a dimensão de tudo aquilo que estava acontecendo por lá…  Em 1996 o índice de evasão nas escolas da região era de 70% e, das crianças que iam para as aulas, 80% terminavam os anos iniciais sem saber ler nem escrever. Aos vinte e três anos Cybele passou em um concurso e se tornou uma moradora do vale. Na escola, ela percebeu que alguma coisa estava errada, porque as salas estavam vazias. Então ela se uniu à equipe da instituição e criou um projeto de auxílio ao professor. A experiência deu ótimos resultados e três anos depois Cybele ajudou a formar um time ainda maior: educadores, associações, integrantes da comunidade, secretarias de educação, empresas e doze municípios da região construíram o Projeto Chapada com a missão de erradicar o analfabetismo na Chapada Diamantina.

    A própria Cybele tinha passado por uma experiência ruim na infância; com dislexia, a menina não apresentava bons resultados através dos métodos tradicionais. Assim, ela entendeu cedo que a sala de aula deveria ser um lugar interessante para a criança. Em cada escola que a nossa equipe chegava a gente via livros, muitos livros espalhados por toda parte. Antes do projeto ser criado os professores da região planejavam o trabalho sozinhos, sem nenhum apoio. Um dos pontos fortes do projeto foi investir na formação continuada e na preparação de coordenadores pedagógicos. O projeto também apostou em outras duas frentes: a mobilização política da comunidade e a produção de conhecimento. Em uma cidade bem pequena da região participamos do Dia da leitura e um cartaz exposto chamou a atenção: uma menina bem pequena lia um livro para toda a família, que estava em volta dela. Embaixo uma frase explicava que era aquela garotinha quem rompia a história de analfabetismo de toda a família…

    Hoje o índice se inverteu: 80% das crianças da região terminam as séries iniciais sabendo ler e escrever. É na Chapada Diamantina que também estão os três melhores resultados do Ideb da Bahia, o Ìndice de Desenvolvimento da Educação Básica. O projeto virou um instituto (com sede no vale mágico), se expandiu para outros estados e já envolveu mais de 70 mil estudantes e 2 mil professores. O desejo da professora que via a escola vazia deu asas a uma história de sucesso e recentemente  ela foi contemplada com o Prêmio Empreendedor Social, da Folha de São Paulo. Mas Cybele gosta de lembrar que esse projeto foi escrito por muitas mãos. “A gente decidiu que a gente não quer nenhuma criança analfabeta na Chapada Diamantina”, é o que costuma dizer. Espírita, ela também acredita que teve uma ajuda maior para conseguir realizar tanto… E não teve limites pra sonhar. Dizem que os sonhos nascem primeiro dentro da gente para depois se tornarem realidade. Cybele é uma prova de que isso é verdade.
Foto: Revista Cláudia

Foto: Revista Cláudia

sábado :: 15 fevereiro, 2014

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Minha querida,

quando eu penso na nossa relação eu lembro um pouco da minha mãe, o que me parece um ótimo sinal. E eu também me lembro muito da sua mãe. Eu e a sua mãe ficamos amigas no dia em que nos conhecemos! Se você perguntar a ela a história da nossa amizade, tenho o palpite que ela vai te dizer essas mesmas palavras… Lembro que falamos que tínhamos a mesma religião, nomes parecidos – Lara e Larissa – e contamos muito de nossas vidas, uma para a outra. Um poeta muito querido disse que a gente não faz amigos, a gente os reconhece. Acho que foi o que aconteceu com a gente, um dia você vai entender melhor o que isso quer dizer… Algum tempo depois que nos conhecemos sua mãe ficou grávida do seu irmão. Ela e o seu pai tem um amor raro, os dois são jovens e já estão juntos há 14 anos! Pra passar assim pelo tempo e continuar feliz tem que ter um amor de verdade. Mas em algum momento esse amor também foi testado pela vida…

Eu via aquele casal tão lindo separado e ia tentando ajudar. Entendia o lado de sua mãe, ia conversar com seu pai e assim fui ficando amiga dos dois. A gente brincava desde o início que aquele era um reencontro e eu realmente sentia como se eu já conhecesse os dois de algum lugar… Sua mãe foi a primeira amiga que eu vi grávida, há 11 anos. Um dia a gente estava em uma estrada, seis mulheres em um carro pequeno e eu reclamei porque estava apertada. Ela, já com um barrrigão de oito meses, disse assim, na maior doçura do mundo: ,”eu chego para a frente, amiga. Pode se encostar no banco”. Aquilo me deixou meio envergonhada… Sua mãe sempre teve esse dom, o de ensinar através do amor.

Anos depois seus pais se casaram e eu fui madrinha. Foi lindo vê-la entrar na igreja sorrindo, olhando para ele ao som de Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier comigo”… Sabe, minha princesa, às vezes a vida é meio estranha mas o que é de verdade fica. Tem alguns anos que nós não moramos na mesma cidade, mas eu ainda lembro da sua mãe todos os dias. Ela continua presente em todos os momentos da minha vida e parece que adivinha quando eu preciso de ajuda. Quando ela me contou que estava grávida de você a gente imaginou que você seria uma menina e pareceria com ela. Em um sábado de carnaval, ela me ligou pra me perguntar se eu aceitava ser a sua madrinha. Foi quando eu soube que o seu nome também ia ser Lara, Lara Nalu. Eu senti um amor muito grande por você e tive vontade de explicar aquilo para sua mãe mas não sei bem se escolhi as palavras certas… No fundo acho até que elas nem importavam tanto, sei que ela me entendia.

imageVocê nasceu numa tarde de junho, eu estava longe e senti muita saudade, uma saudade de quem eu ainda nem conhecia… Fui te conhecer duas semanas depois, peguei você em meu colo e, dormindo, você deu um sorriso enorme! Uma vez me disseram que logo que nascem os bebês tem recordações da última vida e fiquei imaginando que você devia ter sido muito feliz em outro lugar. Também fiquei impressionada com suas mãozinhas, tão bem definidas e no quanto você parecia com sua mãe. Desejo que em sua vida você tenha amizades como a que eu tenho com seus pais, que o tempo faz a gente amar ainda mais… Que a rotina separa e o destino se encarrega de unir outra vez. E então vem um presente lindo como você para confirmar outra vez aquilo que a gente já sabia desde sempre… Estando cercada por pessoas assim, você vai achar a vida mais fácil. E incrivelmente mais bela. Seja feliz!

quinta-feira :: 30 janeiro, 2014

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M&M

    Eu sempre fui fascinada pelo poder do destino. Uma palavra difícil de definir, que provoca risos nos que não acreditam em nada. Eu sempre acreditei muito nele. Concordo que a gente tem poder para reescrever o nosso roteiro mas acho que de algumas curvas não dá para escapar. Algumas histórias me fazem ter ainda mais certeza disso. Uma delas é a história da minha querida amiga Martina, que eu conheci quando ainda morava em Salvador. Martina é uma ariana linda, filha de um baiano com uma colombiana. Aos 18 anos ela já tinha feito intercâmbio nos Estados Unidos, estudado na França e sempre dizia que ia morar no exterior depois que se formasse. Um dia, uma colega de faculdade ligou para Martina pedindo um favor. O irmão da menina trabalhava em Miami e Mário, um guatemalteco que trabalhava na mesma empresa, estava em Salvador. No dia da visita essa colega, que iria ciceroneá-lo, tinha que estudar para uma prova. Com pena de deixar o gringo sozinho, ela ligou para Martina pedindo que ela o encontrasse.

    Martina ligou para o desconhecido e combinou um encontro. Mário lembra que quando desceu do quarto do hotel ele encontrou aquela mulher na recpção de costas, mexendo nos longos cabelos, e naquele mesmo instante ele sentiu atração por ela. Na chegada ao restaurante, no Pelourinho, um ambulante deu de presente para eles uma fitinha do Senhor do Bonfim e Martina explicou aquela tradição. Pediu que ele fizesse um pedido e amarrou a fitinha no pulso do estrangeiro. A afinidade foi imediata e no dia seguinte eles se encontraram mais uma vez… No terceiro encontro aconteceu o primeiro beijo. Naquele dia Mário disse a Martina que sabia que ela era a mulher da vida dele. Fizeram planos para o futuro e depois que ele voltou para Miami continuaram se falando diariamente. Três semanas depois, Mário comprou um anel de noivado sem que ela soubesse. De noite, ao vê-la no skype, disse que tinha uma surpresa para ela. E ela também mostrou uma surpresa que deixou o namorado sem palavras. Naquele mesmo dia, Martina tinha tatuado uma letra M em cada pulso, simbolizando o amor dos dois.

    O casamento aconteceu dez meses depois, em Miami. Uma cena de filme, com um gramado em frente à praia, um dia de sol e todos os convidados de branco. Durante a festa ele anunciou para os convidados que já podia cortar a fitinha do Senhor do Bonfim porque o pedido que ele tinha feito, naquele primeiro encontro dos dois, tinha acabado de se tornar realidade… A fitinha ainda permaneceu em seu braço por mais um ano e se partiu naturalmente na semana em que aconteceu o segundo casamento deles, em Salvador. Rodaram o mundo juntos antes de fazerem o primeiro bebê. Por vontade dela, não souberem o sexo da criança até o dia do nascimento. Só sabiam que, assim como eles, o bebê também teria um nome que começasse com a letra M. M de Martina, Mário e… Maya.

295_66552180690_3215_nNa segunda gravidez foi diferente, souberam que era uma menina ainda no início da gestação e dessa vez escolheram um nome sem o M, Clarisse. No ano passado eu fui visitá-los e encontrei uma família muito feliz… Em casa eles se falam em espanhol, “é mais caloroso do que o inglês”, foi a explicação que ouvi dela. Já com as meninas, Martina se comunica em português para que elas também aprendam o idioma materno, assim como a mãe fez quando ela era pequena. Conhecer a história deles me fez acreditar que alguma coisa boa também esperava por mim. Pra quem acredita em Deus fica difícil não vê-Lo em uma história assim. Uma salva também para a intuição, aquela boa amiga conselheira que cada um tem consigo. Que me perdoem os céticos, mas viver realmente ultrapassa qualquer entendimento.

sexta-feira :: 24 janeiro, 2014

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    Quando Maui, meu golden retriever, completou um ano e eu fiz um texto pra falar dele. Alguns meses depois foi a vez de Mia chegar lá em casa e eu sempre fiquei achando que devia uma homenagem para a minha vira-lata também. Ao contrário de Maui, Mia não abana o rabo pra todo mundo que vem falar com ela. Ela tem um olhar sofrido, de quem já foi maltratado. Apesar de ser pequena também tem um apetite fora do comum, que ainda me deixa impressionada. Mas o que me impressiona mesmo é que a cada vez que termina de comer, ela vem dar uma lambida em quem colocou aquele prato. Talvez a melhor palavra para descrevê-la seja gratidão.

    Foi entrando na internet que eu encontrei uma foto dela. Tinha sido abandonada na rua e foi levada para um abrigo de animais. Na hora da comida ela ia tentar comer e os cachorros maiores batiam nela. E assim ela foi ficando mais triste, isolada em um cantinho, bem no alto para tentar se proteger… Nunca vou esquecer a reação que ela teve ao entrar em minha casa pela primeira vez: se jogou no tapete e começou a rolar, latindo bem alto e balançando as patinhas pro ar. Em pouco tempo Mia e Maui ficaram melhores amigos e tenho que dizer que é ela quem defende ele, partindo pra cima de outros cachorros na rua quando ele demonstra ter medo.

    No Natal o pessoal do abrigo me pediu que tirasse uma foto dela ao lado da árvore. Coloquei minha cachorrinha no colo e ela me olhou de um jeito que fez a primeira foto servir. Dias depois eu encontrei a foto na internet com um texto que contava a história dela. Era mais ou menos assim: ” eu tinha muito medo. Eu pedia sempre: se anjo existe que aparecesse logo um em minha vida. Só que a minha mãe Lara – isso, o nome da mi-nha mã-e é Lara!- já estava fazendo contato pelo facebook e escreveu: ‘agora ela já tem uma família: a minha’. Eu fui para uma clínica e o exame deu anemia e doença do carrapato. Pronto! Pensei: ela não vai esperar…Mas ela esperou! Hoje me chamo Mia! Minha mãe que escolheu…Eu sou muito feliz! Minha mãe é minha vida. Minha família é tudo de bom! Existe muito amor em nossa casa. E eu sou muito grata a todos vocês!” Até hoje essas palavras, escritas em tom de brincadeira, mexem comigo… Embora eu tenha que admitir que a paixão dela é mesmo meu marido! É indescritível a carinha que ela faz quando olha para ele…

imageEm nosso casamento Mia entrou, junto com Maui, levando as alianças. Quando mandei a foto desse momento para a voluntária que trouxe ela para nossa casa ela disse que aquela era a melhor adoção que ela já tinha feito na vida… Mas na verdade sou eu que me sinto grata a eles. Quantas vezes a gente passa na rua e vê um animal abandonado, sentindo fome e frio… Mas os nossos problemas são mais urgentes e por isso a gente passa direto. Mia me ensinou a olhar com mais atenção pra vida. Afinal, por trás daquele jeito meio cismado eu encontrei uma fonte inesgotável de carinho. Que bom seria se, assim como ela, a gente conseguisse deixar o que passou para trás. E, mesmo que a tristeza teimasse em aparecer de vez em quando, ainda assim a gente conseguisse confiar. Talvez seja esse o segredo desse amor sem medidas que os animais sentem: a esperança de ser feliz de novo.

sábado :: 21 dezembro, 2013

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    Hoje faz quarenta dias que eu não te vejo. Quarenta dias passam tão rápido… É a metade do perído de experiência em um novo emprego, o comecinho de um projeto, aquele tempo em que a mãe ainda está descobrindo que está gerando um bebê. Quarenta dias é pouco tempo para todo mundo, menos para mim. Quando você apareceu eu estava sonhando com um amor de verdade. Era um setembro frio no Rio de Janeiro e uma amiga que estava hospedada em minha casa chegou da rua dizendo que tinha conhecido um surfista ruivo. Ele disse que ela precisava conhecer o Baixo Gávea e eu prometi que alguns dias depois eu a levaria lá.

    A gente foi com um grupo de amigas para aquela rua cheia de barzinhos e em um momento da noite eu sugeri que a gente mudasse de lugar. Foi quando eu dei de cara com você… Lindo! Eu disse a minha amiga que você era o homem mais bonito daquele lugar. Você me olhava e não vinha falar comigo até que você reconheceu um colega e se aproximou do meu grupo. Mas eu, cansada de olhar, resolvi virar de costas pra ver se você estava a fim mesmo… E você, com a certeza que eu não estava a fim mesmo, resolveu ir embora!

    O lugar perdeu a graça e pouco tempo depois eu também resolvi ir embora. Comentei o quanto eu tinha gostado de você e minha amiga me consolou dizendo que não era pra ser… Foi aí que eu vi que você estava a apenas alguns passos, comentando com um amigo o quanto você também tinha gostado de mim! Bem que você tentou ir embora mas encontrou aquele amigo do trabalho e parou para conversar com ele justamente na rua em que meu carro estava parado… A gente não sabia mas aquele era o nosso primeiro dia de namoro. E eu nunca pude agradecer ao surfista ruivo pela dica que ele deu para a minha amiga.

    O casamento aconteceu rápido, em três meses a gente começou a dividir a mesma casa. A festa veio dois anos depois. E no altar, eu li pra você o pedacinho de um texto que escrevi quando a gente se conheceu. Dizia assim: quando você chegou a primeira coisa que me aconteceu foi que perdi a noção dos dias. E sabe por quê? Porque em todos eles eu tinha você. E assim todas as manhãs, de repente, passaram a ter o cheiro de uma sexta-feira de sol. Sabe, amor, você é a minha música preferida… Minha companhia perfeita e quando eu vejo seu sorriso eu sei que cheguei na melhor parte do meu dia.

imageCom você eu aprendi o quanto a felicidade é incrivelmente simples. Simples como o dia em que você me pediu em casamento, debaixo da nossa árvore preferida e eu nunca tive tanta certeza de que eu queria alguém como naquela hora. Você me disse que depois de me conhecer teve a certeza de que Deus existia e eu fiquei com raiva de não ter te dito isso antes. Um dia cheguei em casa triste porque tinha ouvido um comentário preconceituoso e você disse que era para eu escrever, para transformar aquele sentimento em beleza. Hoje eu tentei transformar a minha saudade em beleza pra você ler no nosso reencontro. Mas acho que ainda é pouco… Pensei em colocar aqui uma das nossas fotos preferidas, mas fiquei com pena de escolher uma só. Não seria a melhor forma de homenagear um artista ver o mundo através dos olhos dele? Foi pensando assim que eu escolhi suas fotos mais lindas para te homenagear. Com certeza elas podem dizer muito mais sobre você do que eu…